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Hermínia Silva – Fadista

Posted by mjfs em Outubro 24, 2007

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Hermínia Silva nasceu em 1907, cinco anos depois de Ercília Costa, a primeira fadista que saiu das fronteiras de Portugal. Cedo se tornou presença notada nos retiros de Lisboa, que não hesitaram em contratá-la, pela originalidade com que cantava o Fado. A Canção dos Bairros de Lisboa estava-lhe nas veias, não fôra ela nascida, ali mesmo junto ao Castelo de São Jorge. As “estórias” dos amores da Severa com o Conde de Vimioso estavam ainda frescas na memória do povo. O Fado fazia parte do seu quotidiano.

Rapidamente, a sua presença foi notada nos retiros, e passados poucos anos, em 1929, Hermínia Silva estreava-se numa Revista do Parque Mayer. Era a primeira vez que o Fado vendia bilhetes na Revista. Alguns jornais da época, referiam-se a ela, como a grande vedeta nacional, chegando a afirmar-se, que a fadista tinha “uma multidão de admiradores fanáticos”. A sua melismática criativa, a inclusão no Fado, de letras menos tristes, por vezes com um forte cunho de crítica social, e o seu empenho em trazer para o Fado e para a guitarra portuguesa, fados não tradicionais, compostos por maestros como Jaime Mendes, compositores como Raul Ferrão, criando assim o chamado “fado musicado”, aquele fado cuja música corresponde unicamente a uma letra, se bem que composto segundo a base do Fado, e em especial, tendo em atenção as potencialidades da guitarra portuguesa.

Hermínia Silva torna-se assim, sem o haver planeado, num dos vértices do Fado, tal qual hoje ele existe, enquanto estilo musical: Alfredo Marceneiro foi o primeiro vértice, o da exploração estilística do Fado Tradicional, tendo em Ercília Costa o seu maior ícone; Hermínia viria a trazer o Fado para as grandes salas do Teatro de Revista, e viria a “inaugurar” a futura Canção Nacional, com acompanhamentos de grandes orquestras, dirigidas por maestros, que também eram compositores. A sua fama atingiu um tal ponto que o Cinema, quis aproveitar o seu sucesso como figura de grande plano. Efectivamente, nove anos depois de se ter estreado na Revista, Hermínia integra o elenco do filme de Chianca de Garcia, “Aldeia da Roupa Branca” (1938), num papel que lhe permite cantar no filme. Nascera assim, a que viria a ser considerada, a segunda artista mais popular do século XX português, depois de Amália Rodrigues, o terceiro vértice do Fado, ainda por nascer.

Depois de várias presenças no estrangeiro, com especial incidência no Brasil e em Espanha, Hermínia aposta numa carreira mais concentrada em Portugal. O seu conhecido e parodiado receio em andar de avião, inviabilizou-lhe muitos contratos que surgiam em catadupa. Mas, Hermínia estava no Céu, na sua Lisboa das sete colinas. Em 43, é chamada para mais um filme, o “Costa do Castelo”, em 46 roda o “Homem do Ribatejo”, passando regularmente pelos palcos do Parque Mayer, fazendo sucesso com os seus fados e as suas rábulas de Revista. Efectivamente, Hermínia consegue alcançar tal êxito no Teatro, que o SNI, atribui-lhe o “Prémio Nacional do Teatro”, um galardão muito cobiçado na época. Até 1969, em “O Diabo era Outro”, a popularidade da fadista encheu os écrans dos cinemas de todo o país. Vieram mais Revistas, mais recitais, muitos discos de sucesso…

Mas, para quem quisesse conhecer a grande Hermínia bem mais de perto, ainda tinha a oportunidade de ouro, de vê-la ao vivo e a cores, sem microfone, na sua Casa – o Solar da Hermínia, restaurante que manteve quase até ao fim da sua vida artística. Há memórias de muita gente desse espaço fantástico, que não tive oportunidade de conhecer. O nosso companheiro Raúl, neste “Café Expresso”, editor do blog “Congeminações”, narrou-me uma vez, a noite fantástica que passou com Hermínia, no seu Solar. E muitos portugueses e estrangeiros guardam na memória, a voz e a presença daquela mulher que gostava da vida, e que cantava o Fado.

Felizmente, o Estado Português, o Antigo e o Contemporâneo, reconheceu Hermínia Silva. São vários os Prémios e Condecorações, as distinções e as nomeações, justíssimas para uma artista, que fez escola, e que hoje, constitui um dos três maiores nomes da Canção Nacional, ao lado de Marceneiro e de Amália, que por razões diferentes, pelos “apports” de forma e conteúdo distintos que trouxeram à Canção de Lisboa, fizeram dela, o Fado, tal qual hoje é entendido, cantado, tocado e formatado. A sacerdotisa cantou quase até partir para a dimensão do Espírito, em 13 de Junho de 1993. Morria assim, uma das maiores vedetas do Fado e do Teatro de Revista Português.

Marcos principais da carreira:

  • 1920 Canta para Alfredo Marceneiro e para os amigos, entre os quais Armandinho, que adoravam ouvir a “miúda”.
  • 1926 Começa a cantar no Valente das Farturas, no Parque Mayer. Alfredo Marceneiro canta ao lado, no Júlio das Farturas.
  • 1929 Na Esplanada Egípcia, no Parque Mayer, interpreta Ouro Sobre Azul, De Trás da Orelha e Off-Side.
  • 1932 Ainda no Parque, muda-se para o Teatro Maria Vitória, onde actua na opereta A Fonte Santa.
  • 1933 Ingressa no Teatro Variedades, onde é segunda figura, logo a seguir a Beatriz Costa. Canta e representa em inúmeras revistas.
  • 1958 Inaugura o Solar da Hermínia, no Bairro Alto, ao qual se dedicará de tal forma que

deixa o teatro de revista. Estará à frente desta casa durante 25 anos.

  • 1970 Faz uma digressão de 3 meses ao Brasil.
  • 1982 Fecha o Solar da Hermínia, o ponto de referência da sua carreira e onde inúmeros artistas despontaram.
  • 1987 Na discoteca Loucuras! dá um espectáculo memorável, na presença do então Presidente da República, Mário Soares.

Obtido em “http://pt.wikipedia.org/wiki/Herm%C3%ADnia_Silva

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Nevogilde – Porto

Posted by mjfs em Agosto 26, 2007

A freguesia de Nevogilde só nos fins do século XIX começou a fazer parte da cidade e concelho do Porto.

Foi primeiramente chamado a depor o P.e Durando ou Durão – Domnus Durandus, «prelatus eiusdem Eclesiae».
Do seu depoimento, entre outras afirmações, consta que aí o Rei tinha quatro casais, dois deles povoados e dois despovoados. Num dos casais povoados morava João Milheiro (milliarius), no outro residia Petrilino. O mosteiro de Santo Tirso possuía cinco casais, um dos quais desabitado; o mosteiro de Pombeiro, dois casais, dos quais um desabitado; a Ordem do Hospital (S. João de Jerusalém, mais tarde Malta), dois casais, ambos despovoados; a igreja de Vermoim da Maia, um casal despovoado; e os mosteiros de S. João de Tarouca e de Macieira, dois casais cada um.

Pertenceu ao antigo Julgado de Bouças. Já as Inquirições de 1258, mandadas fazer por D. Afonso III, mencionam Nevogilde (Lavygildus) como uma das igrejas ou freguesias desse Julgado.
As Inquirições de 1258 fornecem algumas informações de interesse para o conhecimento de Nevogilde de então. «Hic jncipit jnquisicio ville que vocatur Louygildus et colacionis ecclesiae eiusdem loci»: aqui começa a inquirição da vila chamada Louegildus e da colação da igreja do mesmo lugar». É com estas palavras que abre o texto da inquirição.

Eram padroeiros da igreja as mosteiros de Santo Tirso e do Pombeiro (beneditino) que apresentaram o pároco que o Bispo confirmou. O P.e Durando foi o primeiro pároco e, a partir da sua nomeação, começou a receber as dízimos: «et postquam ipse fuit prelatus dederunt ey totam decimam tocius ville…».

Outras testemunhas foram chamadas a depor: João Mendes, Miguel Migueis, Pedro Remígio. D. Julião, Pedro Crispo e Domingos João. Todas elas confirmaram o depoimento do P.° Durando. Fez parte do referido Julgado até à sua extinção. Abolido este com a criação do concelho de Bouças, em 1835, continuou a pertencer ao novo concelho, com as freguesias de Matosinhos, Leça, Aldoar, Ramalde, Lavra, Perafita, Santa Cruz do Bispo, Guifões, Balio, Custóias e S. Mamede de Infesta.

Em 21 de Novembro de 1895, construída a estrada da Circunvalação, passou Nevogilde para o Porto, Bairro Ocidental, o mesmo acontecendo às freguesias de Ramalde e Aldoar. Eclesiasticamente, a freguesia pertenceu ao Arcediagado da Maia. Quando, no século XIV, as agrupamentos das freguesias começaram a ser designados por Terras, Nevogilde pertencia à Terra da Maia. Mais tarde, com a nova divisão da Diocese em Comarcas Eclesiásticas, Nevogilde fazia parte da Comarca Eclesiástica da Maia. Posteriormente, as comarcas foram divididas em Distritos. Maia ficou dividida em três Distritos e Nevogilde ficou a pertencer ao 1.° Distrito da Maia.

Por decreto episcopal de 15 de Janeiro de 1914, foi, juntamente com Aldoar, incorporada na circunscrição da Cidade do Porto. Eis o texto do decreto do Cardeal Dom Américo, Bispo do Porto:
«Incorporação das freguesias de Nevogilde e Aldoar na circunscrição da cidade, 15 de Janeiro 1914.
Tendo sido incorporadas na circunscrição eclesiástica da cidade, por Decreto de 19 de Fevereiro de 1910, as freguesias de Lordelo do Ouro, Ramalde e Foz do Douro, e encontrando-se em condições idênticas as freguesias de Nevogilde e Aldoar, únicas que estando quasi por completo dentro da área da cidade, ainda pertenciam ao 1.° Distrito Eclesiástico da Maia, para mais facilitar os serviços eclesiásticos; – Hei por bem determinar que as paróquias de Nevogilde e Aldoar sejam desanexadas do 1.° Distrito Eclesiástico da Maia, e incorporadas na circunscrição da cidade para todos os efeitos.»

Com a reorganização das vigararias em Distritos no ano de 1916, Nevogilde continua incluída na vigararia do Porto. Com um novo e posterior arranjo e divisão da vigararia do Porto, ficou incluída na vigararia 5. Presentemente, desde Julho de 1979, Nevogilde pertence à, 1.° vigararia do Porto, com Aldoar, Amial, Cristo-Rei, Foz do Douro, Lordelo do Ouro, Ramalde, Senhora da Ajuda e Senhora do Porto.

 

A freguesia de Nevogilde, que nos últimos anos se tem desenvolvido muito e conta belas zonas residenciais, antigamente poucos habitantes tinha. As Inquirições de 1258 referem 17 casais na vila de Nevogilde, alguns dos quais – pelo menos 6 – estavam desabitados.

As Constituições diocesanas de D. João de Sousa, aprovadas em sínodo de 18 de Maio de 1687 e impressas em 1690, dizem que Nevogilde tinha 21 fogos e 82 habitantes, sendo 68 pessoas maiores e 14 menores.

Em 1758, o Abade Manuel Pereira da Silva informa que a freguesia tinha 41 vizinhos ou fogos e 143 pessoas, entre maiores menores e ausentes.

Por sua vez, o P.e Agostinho Rebelo da Costa na sua Descrição Topográfica e Histórica da Cidade do Porto, cuja primeira edição é de 1788-1789, apresenta os seguintes dados, certamente relativos a 1787: em Nevogilde 36 fogos, e almas 136. Comparando estes últimos números com os de 1758, regista-se uma diferença, para menos, de 5 fogos e 7 almas.

Um relatório de 1839 dá à freguesia 30 fogos e 137 almas.

No censo de Dezembro de 1900, Nevogilde contava 224 fogos e 1149 almas, e no de 1970, 4217 habitantes, a saber 1739 do sexo masculino e 2479 do sexo feminino, e 995 fogos. É de notar que o censo de 1970 acusa, relativamente ao censo de 1960, um decréscimo de 1013 pessoas, ou seja, a população terá, diminuído 19 %.

Uma informação dada em 1937 pelo Pároco, Dr. Conceição e Silva, refere haver na freguesia 483 fogos e 2467 habitantes.

Observamos que não condizem, rigorosamente, os limites da freguesia civil e eclesiástica. Mas adiante voltaremos ao assunto.

Avançando nos séculos em busca da sua evolução, o jornalista Joaquim Fernandes diz-nos que «a palavra-chave é turismo balnear, revolução que emerge no último quartel do século XIX. As praias regurgitam de gente e a urbanização litoral é um facto, com a burguesia portuense a erguer os seus chalets». E se até determinada altura a Foz era apenas um local de passagem para alguns veraneantes, a partir de então passou a ser sítio para viver todo o ano e, naturalmente, a sua paisagem foi sofrendo transformações radicais. Nasceu assim a «Foz Nova», com ruas direitas e amplas, emolduradas por belas vivendas rodeadas de bonitos jardins.

Os prédios eram normalmente de um só andar, embora abundassem também os de sois e os térreos, segundo Carlos Champalimaud, «consequência natural de abundância de terrenos que não obriga à acumulação de indivíduos e mesmo de famílias em prédios comuns…».

Uns optaram pelo tipo de construção francesa, cuja elegância era realçada por Ramalho Ortigão como sendo «tão rara nas casas portuguesas», enquanto outras, em maior número, tinham inspiração britânica, o que levou Júlio Dinis a apelidar o conjunto ocidental da cidade como o bairro inglês, «… por ser especialmente aí o habitat destes nossos hóspedes. Predomina a casa pintada de verde-escuro, de roxo-terra, de cinzento, de preto… até de preto! – arquitectura despretensiosa, mas elegante; janelas rectangulares; o peitoril mais usado que a sacada».

Durante este século a população aumentou consideravelmente, o que se sente no desaparecimento de campos e pinhais, no rasgar de novas artérias e na construção de edifícios que contrastam com os até então existente, mas que, ao mesmo tempo, nos dão uma imagem da evolução de Nevogilde nos últimos 100 anos.

Cadouços marca o local de «fronteira» entre Nevogilde e S. João da Foz. Aqui a densidade populacional é maior, tal como o número de estabelecimentos comerciais, e sente-se mais facilmente o contacto entre o novo e o antigo, através dos pequenos jardins e dos espaços arborizados, das casas com 100 anos e dos prédios recentes.

A evolução dos transportes teve um papel importante para a população do interior da cidade, que através do caminho-de-ferro puxado a cavalos e do «americano» (1872) – o primeiro do país, que demorava apenas 30 minutos a ligar a Praça do Infante à Foz – passaram a frequentar assiduamente as praias.

Assim, rapidamente surgiu a ligação entre a Foz e a Praça de Carlos Alberto e, finalmente, foi introduzida a máquina a vapor, de cujo percurso ainda há vestígios na Rua do Túnel, na Ervilha e na Rua de Tânger. Na Avenida de Carreiros circulavam veículos puxados por uma ou mais parelhas de cavalos, pertencentes à Companhia Carril Americano, conhecida como Companhia de Baixo, no trajecto com início na Rua dos Ingleses (hoje Rua do Infante D. Henrique), seguindo beira-rio para a Foz do Douro e continuando para Nevogilde, Matosinhos e Leça da Palmeira.

Na Rua de Gondarém circulava o comboio conhecido como «a máquina», pertencente à Companhia Carris de Ferro do Porto, popularmente chamada de Companhia de Cima, com trajecto com início na Avenida da Boavista, seguindo para a Foz do Douro, Nevogilde e Matosinhos. Depois de deixar a Avenida da Boavista, o comboio seguia pela Ervilha, Rua das Sete Casas, Cadouços, onde existia uma toma-de-água para abastecer a caldeira da locomotiva, entrava no túnel (hoje transitável de automóvel) e continuava pela Rua de Gondarém.

Foram os britânicos que, em meados do século XIX, lançaram a moda de fechar as suas casas na cidade para irem passar uns meses à beira-mar. Como sintoma dessa realidade existe ainda a praia dos Ingleses, que era quase exclusivamente frequentada por estrangeiros, principalmente britânicos.

Mas também existiam muitos outros para quem as modas não interessavam minimamente e «iam a banhos» apenas e só para cumprir a prescrição do médico.

Recorrendo a Porto – percursos nos espaços e memórias, sabemos que a “saison” de praia se prolongava normalmente por dois meses e o mais vulgar era alugar casa, havendo famílias que se mudavam com mobílias e tudo, servindo-se para o efeito de um meio de transporte singular: o carroção. Recorria-se também ao vaporzinho (vapor Duriense) e ao burro.

A Foz era calma no Verão. Não havia muito por onde escolher em termos de diversão. De manhã tomava-se banho ou assistia-se ao espectáculo do banho colectivo. Isto somente até finais de Setembro, princípios de Outubro, e, segundo Alberto Pimentel, havia aqueles que eram mais pudicos e procuravam banhar-se de madrugada.

Num excerto de um texto delicioso, o historiador refere que «os aldeões de Cima-do-Douro (…) iam tomar banho de madrugada, ocultando-se o mais possível entre as fragas, por causa da extrema leveza do fato com que costumavam entrar na água. As mulheres vestem camisa, os homens ceroulas (…), fazem lembrar Adão e Eva cobertos por uma teia de aranha».

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